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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

Para lá da baixa e do Chiado

Francisco José Viegas

Jornalista e escritor, 44 anos. Presidente da Casa Fernando Pessoa

 

Todos queremos uma cidade à nossa medida, mesmo que não seja perfeita. E temos as cidades da nossa alma, do nosso coração, as cidades que nos completam. Aqui ou em outro lado, porque não sou nacionalista e conto-me por pouco patriota.
Provavelmente, gostamos das nossas cidades. Mas, para a generalidade dos cidadãos - os cidadãos que usam e são usados pelas cidades, não os quadros superiores do Estado e felizardos que podem evitar o que é para evitar -, parte delas são monstros que se evitam durante o dia e que à noite acabam por ser entregues ao silêncio, à marginalidade, à degradação e à miséria. Esta imagem pode ser exagerada, mas a culpa não cabe a uma autarquia. A verdade é que poucos suportam as cidades como elas estão hoje, poluídas, caóticas, desordenadas, cheias de trânsito.
As cidades portuguesas transformaram-se, nos últimos anos, em território abandonado à incúria dos cidadãos, aos privilégios dos interesses e, sobretudo, à miséria que transforma a qualidade de vida em excepção impossível. Muito disto acontece por causa dos “ocupantes das cidades”, simples cidadãos que sujam a rua e desrespeitam as normas mais comuns de comportamento em sociedade, até às comunidades de bairro que nunca puderam aceitar viver de outra maneira. Mas há outros índices graves a associar a factores como esses: a rede de transportes públicos, o elevado índice de desleixo paisagístico, o abandono dos centros históricos em benefício da criação de gigantescos dormitórios que enriqueceram proprietários de ocasião, e até a via-sacra das obras do regime - que prolongam o cenário dos estaleiros até ao limite. A frase é longa mas serve para que se faça a pergunta seguinte: a quem pertencem as cidades?
Pensar a política de hoje devia obrigar-nos, também, a reflectir sobre o nosso espaço. Porque o espaço não é, apenas, um problema de economia, de investimento e de arquitectura: é um problema de saúde pública num país em que as cidades, definitivamente, estão doentes e feias ou transformadas no folclore dos bairros “tradicionais”, onde, por detrás das fachadas dispostas para a fotografia dos visitantes ou para os filmes de Wim Wenders, há sobretudo ruínas, má vida e má qualidade de vida, ausência absoluta de condições e de beleza. Os políticos do regime raramente se preocuparam com isso: com a beleza das cidades, com a beleza que entra pelos olhos dentro e que se chama, salvo erro, meio caminho para uma certa felicidade.
O ideal seria que fosse possível imaginar a Baixa e o Chiado como homenagem ao sonho de haver gente a viver nas cidades, a falar nas cidades, a amar nas cidades, a morrer nas cidades. Hoje, isso faz-se em qualquer lado - sem brilho, sem glória. Talvez por isso, a Baixa e o Chiado deviam recuperar o sentido da sua história e do seu passado, orgulhar-se da sua toponímia e, se necessário, constituir-se como excepção. Não são necessários “espaços culturais” nem artifícios que se inventam para povoar o que está povoado. Basta abrir a cidade e mantê-la limpa, cuidada, aberta para o céu. As utopias assustam-me: ou correm mal ou derivam em catástrofe. Prefiro que as pessoas, lentamente, ocupem as ruas, as lojas, os cafés. Os iluminados raramente trazem luz - e a luz que trazem é demasiado cara para o nosso desejo de simples conforto, que é outro valor a ter em conta para as cidades.

publicado por O provedor às 20:36
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