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Sábado, 11 de Novembro de 2006

Pensar Lisboa pressupõe amar Lisboa

Carlos do Carmo

Nasceu em Lisboa há 66 anos

 

Não havendo uma reconversão de mentalidades em Portugal, é muito difícil discutirmos as questões de fundo. Porque essas questões requerem amor-próprio, muito amor-próprio. O que é ser português? O que é isto de ter nascido aqui? É em função disso que temos de encontrar respostas e dar, cada um a seu jeito, um pequeno contributo. Uns mais do que outros porque são mais capazes em determinadas áreas cruciais da sociedade.
Há especialistas para tudo. Sobre a Baixa de Lisboa acredito que há especialistas. Não é o meu caso. Eu sou um especialista de Lisboa na matéria do amor, porque canto Lisboa, porque quero muito à minha cidade. É uma cidade que representa para mim cinco gerações, e por isso tenho-lhe um grande amor. Não assisto às coisas de braços cruzados nem com indiferença. Mas Lisboa é uma cidade com tais virtudes que é capaz de resistir a tudo e engolir tudo.
É uma cidade carregada de desmandos, porque falta sobretudo amor na sua condução. Mas isso é uma coisa que vem de longe, e assim sendo, pensar Lisboa pressupõe amar Lisboa. Com isto não estou a criticar o actual presidente da câmara, ou o anterior, ou outros. É um trabalho de equipa. Sabemos que vivemos numa sociedade onde a pressão imobiliária é violentíssima e portanto o que vemos é só cimento. Não há espaço para crianças, nem para as pessoas respirarem um pouco de verde. E isto significa que é uma cidade pensada com pouco amor. No fundo o que estamos a fazer é deixar um legado violentíssimo aos nossos filhos e aos nossos netos. Estamos, todos os dias, a roubar-lhes qualidade de vida.
Mas a cidade tem condições naturais para dar essa qualidade de vida a que todos temos direito. No entanto, o que acontece cada vez que se vê uma clareira? Passado pouco tempo está lá um imóvel com cem ou mais apartamentos. Não há um espaço verde, não há nada que seja pensado para as crianças. Depois é o carro, a ditadura do automóvel. Porque é que estamos condenados a uma cidade que quando chega a Agosto, e as pessoas vão de férias, ganha uma espectacular qualidade de vida? Isto tudo conduz-nos a falar na Baixa e na Alta. É igual. O problema arrasta-se por toda a Lisboa.

 

Requinte de uma época

O coração da cidade na minha juventude funcionava dentro de um determinado enquadramento e de uma época. Por exemplo, o Chiado, antes do incêndio, era um espaço muito interessante, porque tinha o pequeno comércio, tinha requinte, tinha um pouco de tudo. Este pequeno comércio personalizado, onde as pessoas tinham uma afectividade e um elo de ligação à clientela, tornava tudo familiar. Com o incêndio tudo isto foi praticamente devastado. O parque habitacional, devido à terrível lei do arrendamento que tínhamos, degradou-se violentamente. E hoje o que resta na parte histórica da cidade são pessoas de idade, que muitas vezes nem saem de casa, pois têm de subir três, quatro andares a pé.
Este conjunto de distorções tem de ser bem reflectido, porque é preciso muito dinheiro para recuperar e para reintegrar tudo isto. Mas tem havido uma distorção. Tem-se pensado em grandes superfícies, que são o grande painel da solidão. Há uma directriz tão imediata no dinheiro e tão parca no humanismo que torna muito difícil reorganizar Lisboa, porque está instalada uma mentalidade podre.
Para mim das pessoas mais sensatas, mais belas a falar de Lisboa é o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. É uma pessoa que ama e conhece Lisboa. Quando fala sobre esta cidade eu bebo o que ele diz, pois sabe o que diz. Depois, há para aí umas pessoas que têm nome mas que dizem tais disparates, só para dar nas vistas... Esquecem que têm responsabilidade intelectual.
Como se faz uma cidade sem ter gente a pensá-la, sem a sentir? Dói-me ver Lisboa assim. Não ando a cantar Lisboa há 43 anos por acaso. Não o faço por birra. Eu sinto a cidade. Quando eu e o Ary (dos Santos) cantámos Lisboa juntos, cantámos uma Lisboa que conhecíamos, uma Lisboa que amámos, e por isso é que ela é verídica, autêntica. O que gostaríamos era que o disco não se transformasse numa relíquia do passado, mas sim num quadro vivo do quotidiano, com a natural evolução da sociedade.

publicado por O provedor às 16:57
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