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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2006

Uma urbe desmazelada

Humberto Salvador Ferreira

Leitor do DN

 

 

Parabéns pela iniciativa! Sou lisboeta de gema e amo a minha cidade. Mas atravesso uma  deprimente fase de indiferença. Ainda hoje, ao ler as duas páginas dedicadas à revitalização da Baixa/Chiado fui passear ao local e vi uma zona terceiro mundista, a pedir a classificação de Lisboa Infeliz! Lembro o tempo em que me orgulhava de dizer aos meus amigos estrangeiros que Lisboa era a capital mais limpa do mundo! O que não andava muito longe da verdade. Hoje é uma desgraça!  

Não dá gosto morar numa urbe tão desmazelada! De positivo, o debate agora proposto pelo DN!

Concordo com grande parte do artigo do António Mega Ferreira. Afinal AMF é conhecedor profundo da nossa cidade e experiente na gestão e lançamento do Parque das Nações. Foi uma boa escolha para a primeira opinião sobre o tema e uma boa saída para o debate - que apenas peca por se limitar a uma semana. 

Sobre os seis projectos principais destacados, apresento os seguintes comentários:

 

EDIFICADO - O aspecto da maior parte dos edifícios da Baixa/Chiado - apesar dos esforços de reabilitação iniciados há dezenas de anos - é péssimo! Não há artéria que não tenha pelo menos uma construção em ruínas e outras quase abandonadas. A situação é bizarra face a plano tão ambcioso. Primeiro há que valorizar o edificado com leis e apoios exequíveis e não artificiais! Este plano também é teórico e visa um modelo equilibrado entre conservação e inovação. Mas o que dizer dos mamarrachos que surgem cada ano nas ruas de Lisboa? Na Rua dos Sapateiros vi um prédio pombalino transformado em residência universitária (o que até é uma óptima solução) mas pintado de cor de rosa assanhado! A reabilitação do antigo edifício da Ordem dos Advogados no Largo São Domingos também não foi a melhor. De um edifício de traça nobre passou a parecer um prédio moderno a imitar o antigo! A estação do Rossio está demasiado branca para a minha sensibilidade estética. A Loja do Cidadão no edifício do Eden é de um mau gosto que brada ao céu num edifício tão belo e bem recuperado!  Aliás, os meus passeios pela Baixa deixam-me extremamente nostálgico ao ver antigas lojas e serviços desactivados, mudados ou falidos. Na sede da antiga Companhia Colonial de Navegação, na Rua da Prata, está a Junta de Freguesia de S. Nicolau - uma das apontadas para fusão devido à decrescente população residente! Mas a antiga agência Marcus & Harting (no Rossio) continua fechada, com jornais velhos de longos anos a forrar os vidros! As leis em Portugal são muito mal feitas apontando para a degradação do património sem permitir o usufruto dos bens e equipamentos por outros investidores interessados! Nos Restauradores, o palacete da antiga Pan American está devoluto, depois de ter sido loja da Renault e alojado um banco moderno! E a loja de Artesanato Regional tem uma tabuleta de plástico terceiro-mundista. Se fosse turista não comprava ali nada! Este plano de revitalização deve começar por requalificar as tabuletas do comércio! No Parque Mayer, o cartaz que anunciava as revistas em cena, anuncia agora o Bufete do Plaza! A única viabilidade do Parque Mayer - como pólo de entretenimento - seria garantida pelo Casino - que foi para o Parque das Nações que ficou a ganhar em clientes e em fluxos turísticos. Com esta transferência, o centro de Lisboa perdeu ainda a possibilidade de atrair uma rotatividade de frequentadores mais qualificados da sua oferta nocturna!   

 

FRENTE RIBEIRINHA TERREIRO DO PAÇO/CAIS SODRÉ - Este plano pretende e bem transformar este trecho num pólo urbano e turístico! Mas não diz como. Quanto a mim, na margem da Praça do Comércio deviam ser fundeados quatro batelões adequados (com cobertura e defesa lateral contra vento e chuva) para desembarque e embarque de passageiros nos catamarãs (ou outros ferries) nas quatro rotas (Cacilhas, Montijo, Seixal e Barreiro). Os passageiros chegados (e os de partida para a margem esquerda em sentido contrário) emcaminhar-se-iam para as entradas com acesso directo à estação do Metro, ou para as paragens de autocarros e táxis na P. Comércio, sem necessidade de percorrerem tanta distância desde o cais do Sul e Sueste - que seria adaptado para tráfego turístico ao serviço dos operadores de cruzeiros fluviais - ficando o Tejo e o índice económico da cidade valorizados com o movimento diário  destas embarcações - como no Delta do Pó em Veneza, ou em Amsterdão, Paris, Londres, etc. Assim, seria também cumprido o designío do plano. O terminal do C. Sodré - agora encerrado - seria usado, por sua vez, para duas segundas rotas para e de Cacilhas e Seixal, justificadas pelo movimento gerado e pela ligação directa a outra linha do Metro, ao CF de Cascais e à rede da Carris. Mas transformar aquela praça numa feira (nem de natureza cultural - por exemplo de antiguidades) - NÃO!

 

TERREIRO DO PAÇO - Acho muito bem que o uso preferencial deste local nobre seja de natureza politico-administrativa durante o dia. Mas à noite, que melhor local há em Lisboa para animação nocturna? Com esplanadas, shows musicais, teatrais, fogo de artifício, encontros de futebol projectados em videowalls gigantes e outros eventos de interesse popular. Que belos serões poderá a população e visitantes de Lisboa ali usufruir! Durante o dia NÃO, até para não perturbar o trabalho nos ministérios - especialmente no das Finanças sempre em obras! O que também não quero ver é barracas no T.Paço, como aquela azul do "museu do triciclo", que lá se encontra e que mais parece uma feira de saltimbancos! Nem gosto de ver o chão vazio. As mesas, cadeiras e sombras das esplanadas dariam um aspecto de utilidade à praça. Mas não com cadeiras de plástico da Sagres, como há uma esplanada nos Restauradores. Sempre com equipamento de padrão europeu (em Portugal temos bom design de mobiliário), como se aprecia em Veneza, Paris, Viena, Bruxelas ou Amsterdão! Sinceramente, não me agrada a ideia de abrir um hotel de charme no T.Paço! Misturar ministérios com hotelaria cheira a esturro! Nem de lojas e bancas de souvenirs debaixo das arcadas! Mais uma feira? A alguns portugueses puxa-lhes o pé para os chinelos, ainda gostam de barracas, tascas, feiras, empurrões, confusão, etc. 

O Parque das Nações e Belém, pelo menos até, agora são dois bom exemplos da vida contemporânea ao ar livre em Lisboa!

 

CULTURA - Também não me agrada a saída do Governo Ciivil e, por inerência, do piquete da PSP do Convento de S. Francisco no Chiado. E já começo a ficar com os cabelos em pé com tantos planos para museus! Num período de crise nas finanças públicas (e privadas) nem é próprio dos políticos avançarem com tais investimentos! Uma escola de artes e ofícios num espaço nobre da cidade é desperdício! A cultura em voga são festivais de música rock, hi hop e desfiles de moda. Pouco mais! E esses não precisam de apoios. O resto é folclore e vontade de investir em pseudo criadores que nos dão pouco e mau em troca! Promovam em cada ano em Lisboa uma grande exposição de clássicos do género o Triunfo do Barroco! Para mostrar às gerações contemporâneas o que á arte e cultura! 

 

COMÉRCIO - O comércio da Baixa em decadência reflecte o inevitável fim de um ciclo. Mas afinal, quantas centralidades de compras querem os nossos bem intencionados autarcas dinamizar? Será Lisboa capaz de sustentar tanto comércio? Rico, remediado e pobre? Como é o da Baixa agora? Ou será sempre na tónica do projecto mais recente querer retirar clientela dos outros?

Lisboa tem já múltiplos pólos de comércio. Oito principais: Colombo (Benfica); Vasco da Gama e P. Nações; Amoreiras/Rato/Eduardo VII; Avenida da Liberdade (o mais caro segundo as estatísticas); Avenidas Novas (no eixo Fontes Pereira de Melo/António Augusto Aguiar - El Corte Inglés - República/Campo Pequeno); Avenida Roma/Olaias; Baixa/Chiado; e Almirante Reis/Areeiro. Outros em alguns bairros populares: Belém, Alcântara, Estrela, Campo de Ourique, Graça/Bairro das Colónias, Alfama/Sé/Castelo, etc.). Custa-me ver tantas lojas (tradicionais e modernas) encerradas. Tanto dinheiro perdido. Tantos sonhos desfeitos! A Baixa/Chiado, incluindo as Ruas Augusta, Áurea, Prata, Fanqueiros e as transversais, já constituem espaços de comércio a céu aberto durante os dias úteis. O problema é chamar clientes à noite e aos fins de semana. Ora sem residentes novos nada feito! A população local é idosa e sem meios! E duvido que em 20 anos a população suba de 5000 para 17000. Nem com atraentes incentivos fiscais e outros para aliciar jovens casais - num período em que «este governo só corta onde nos dói mais» como constata o PCP nos cartazes que "ornamentam" a cidade! A Baixa - aliás como já sucede no Chiado/Bairro Alto - pode ser SIM outro pólo de entretenimento e cultura - onde cabe a tal escola de artes e ofícios e outras iniciativas num prédio vulgar requalificado. Por exemplo, nesta minha ronda vi que os únicos restaurantes do meu tempo (trabalhei anos no Bairro Alto e Rua Augusta) é o Regional e o Palmeira (este uma sombra escura do que era). Ora bons restaurantes poderiam chamar à Baixa bons clientes, havendo espaço para estacionar? A Baixa/Chiado está vocacionada para serviços e lojas de dia e para restaurantes, animação, cultura e entretinemento de noite. Mais hotéis Sim. Mas não podemos esquecer que é mais vantajoso construir de raíz do que reconstruir um edifício oitocentista! Talvez residenciais, sedes de clubes e associações pela sua centralidade! 

 

TRÂNSITO - Essa mania de dificultar o trânsito é velha. Especialmente quando se tem direito a parque grátis junto do emprego! Como AMF muito bem escreve é radicalismo puro querer eliminar a circulação até 2010. Assim não vão desenvolver nem a imobiliária residencial e de serviços, nem os restaurantes, comércio e animação. E o desejo expresso para a valorização de uma oferta abundante e diversificada de transportes públicos faz-me rir! Por ser uma promessa sem pés nem cabeça, nunca cumprida. Analisem esta recente mudança parcial da rede da Carris! Atrapalha toda a gente. Trabalhadores, estudantes, novos, idosos, saudáveis, doentes! No 10 de Junho não esqueçam de propor os autores para uma comenda! E a ideia da Circular das Colinas (já deixou de ser Sete) será boa especialmente para facilitar o acesso ao Hospital de São José em caso de uma emergência! É que se fecharem o Rossio e as sete ruas que ligam ao T.Paço, só resta o Chiado (que já está condicionado e ... saturado!). Não há dúvida: é uma circular de difícil concepção e realização prática - só vejo a alternativa pela Infante Santo-Estrela ou pela Diogo Couto/Vale de Santo António? Além de ser muito dispendiosa e desviar o tráfego do centro. Já se viu alguma capital assim? Veremos os prós e contras deste radicalismo! O importante é regular, controlar e melhorar cada dia a circulação e o estacionamento por todas as diferentes coroas da cidade! Ninguém referiu o estado dos pavimentos e da sinalização horizontal e vertical da cidade. Outra miséria que urge remediar! Afinal, uma questão de se estar ou não com os pés no chão!

 

FINANCIAMENTO - Esta entrada é da autoria de AMF, na notícia só vi propaganda! Onde é que a CML vai arranjar 642 milhões de euros de 2007 a 2020? Depois de pagar o Túnel do Marquês? E as dívidas herdadas? Os privados investem apenas em planos bem testados! O resto é conversa!

 

CONCLUSÃO - Vamos SIM melhorar Lisboa. Sem dúvida, todos apoiamos essa proposta! Mas o Governo e a CML devem começar por eliminar a frequência dos incidentes resultantes das cheias - cada vez que chove a cidade transforma-se num caos ainda maior; por valorizar o património construído mas decadente - deve haver mais incentivos para quem puder recuperar edifícios e agravamento social para quem quiser construir de novo nas coroas centrais; garantir maior cuidado com a aprovação dos projectos de novas construções ou de reabilitação - uma vez que proliferam o exemplos de total descaracterização do estilo em que se enquadram; e, sobretudo, mais limpeza urbana! Já era uma grande ajuda se garantissem estes desideratos comuns à maioria! O plano em questão deve ser usado apenas como masterplan. Todos os projectos em curso ou a apresentar por privados e serviços públicos devem poder ser enquadrados na filosofia e grelhas traçadas, a aprovar pela Câmara. As indispensáveis infraestruturas - como a Circular das Colinas - serão construídas à medida que a autarquia vá juntando verbas! O que em épocas de crise e sacrifícios à população não terá muita saída.

Se os privados quiserem adaptar prédios pombalinos para hotéis na Baixa é uma boa ajuda que merece ser apoiada! O Hotel Bairro Alto é um bom exemplo! Mas, por favor, senhores autarcas, não se substituam aos promotores imobiliários e aos donos das obras! Os privados têm as suas competências e os autarcas e técnicos camarários outras! Cada macaco...

publicado por O provedor às 12:50
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